Jul
14

Literatura Fantástica

 1 – A revelação dos sacos de plástico
Lua123

O barão saiu da despensa a tremer, cambaleou até à sala e sentou-se no sofá da tetravó que, tal como sempre, se afundou com um grito debaixo do seu ilustre traseiro.
Passou os dedos pelo tecido coçado e pensou com os seus botões que estava perdido: a sua nobre família terminava ali, na sua pessoa.
A verdade tinha-lhe sido cruelmente revelada pelos sacos do Lidl e do Minipreço. Era simples: guardava os sacos de plástico num cesto de palha que, em tempos áureos, borbulhava de plásticos de marca e de sacos Bulhosa, Bertrand, etc. Agora? Apenas representantes das lojas mais baratinhas. Havia que assumir: estava… pobre.
Sabendo que, se não fosse pelo dinheiro, mulher alguma se aproximaria dele, compreendeu que nunca teria filhos. Seria o último da sua família. Game over.
Só não se asfixiou logo ali, com um saco de plástico, porque não tinha nenhum digno do seu sangue azul.”

” 2 – A importância de não gargalhar
Lolita Implicada

– Quinze minutos sem se mexer…
A Miss observou o dentista como se este lhe tivesse pedido para deixar de depilar as virilhas para sempre: quinze minutos? Isso era muito tempo… uns 100569999 segundos, calculou, preocupada.
– A sua beleza… – reforçou o médico.
E assim a convenceu, antes de lhe enfiar os dedos na boca e pressionar os molares no sítio onde iriam viver (felizes) para sempre. Depois retirou a mão e o tempo começou a contar.
A Miss nunca percebeu muito bem o que aconteceu: uma piada saltou-lhe da memória e fê-la sorrir; uma graça disparou de algum recanto do seu cérebro e o sorriso alargou-se; um acontecimento hilariante dançou-lhe à frente dos olhos e ouviu-se gargalhar. E perante o incrédulo médico… engoliu a ponte.
Foram só três dias, um saquinho de plástico e um pau de gelado para recuperar os 2000 € de dentes e ganhar um hálito fedorento.”

” 3- Loop
Luís XIV

Joaquim estava quase a acabar o teste. Era o último e depois ia empregar-se e ganhar dinheiro. Muito dinheiro, esperava ele. Muito. Começou a sentir-se entusiasmado, quase emocionado, à medida que completava as derradeiras linhas.
E foi quando escreveu o ponto final que aquilo aconteceu: a prova desapareceu-lhe das mãos e deu consigo a olhar surpreendido para a secretária vazia. Baixou-se para procurar o teste debaixo da mesa quando alguém entrou na sala. A voz da Professora quase o fez dar uma turra no tampo: “Guardem os telemóveis, não quero nada em cima da secretária a não ser uma caneta e o cartão de estudante”. Dois segundos depois o teste que conhecia era-lhe de novo colocado perante os olhos incrédulos. “Boa sorte” disse-lhe a professora. Mas aqui entre nós, a sorte ali não ia servia de nada, pois Joaquim iniciava a segunda iteração de um loop infinito.”

” 4- Compacto
Zé Zen

Miguel juntou-se nervoso à fila de caloiros. Observava-se algum caos em torno dos primeiros, a uns 150 alunos de distância. À sua volta? Um magricelas e uma gorducha. Trocaram e-mails e conversaram.
Entretanto o rebuliço alcançara-os: um rapaz mascarado de pinguim acercou se do colega do lado e, depois de lhe pintar a cara, gritou a Miguel: “Três flexões!”. Mal ele as concluíra e já um senhor de ar calmo lhe estendia a mão: “Bem-vindo ao Técnico, jovem. Felicidades!”. Logo uma enfermeira lhe comprimia um aparelho estranhíssimo na nuca: “Chips da LEIC. O chip ACED costuma causar vómitos. Avise-nos se não conseguir construir nenhum argumento válido nas próximas semanas. É porque o chip Lógica tem problemas”. Ainda lhe doía a cabeça quando uma rapariguinha se aproximou: “Parabéns, Senhor Engenheiro! O diploma.”
Depois foram todos para os copos comemorar a licenciatura, mas sem abusos: no dia seguinte tinham o mestrado para fazer.”

” 5 – Erasmus
Catherine Back

A professora colocou o capacete e sentou-se a observar os alunos em exame. Com a chegada dos extraterrestres tudo se complicara. Os Lexiconianos, por serem muito mais inteligentes que os humanos, passavam as aulas a gozar colegas e professores; os de Vorteno5, com aquele maldito poder de ler mentes, descobriam rapidamente as soluções dos exames se os docentes não usassem os capacetes de aço (o que, na verdade, era irrelevante, pois acabavam por ler as mentes dos brilhantes Lexiconianos). Mas o pior eram os violentos Lobos de Dlith.
Algum governante espertalhão resolvera promover o intercâmbio estudantil interplanetário e se os terrestres não aproveitavam a oportunidade, dado o risco de serem devorados em Dlith, vários Lobos chegavam anualmente ao Técnico.
Um estardalhaço no fundo do anfiteatro despertou a docente dos seus pensamentos: um Lobo arrancava à dentada a cabeça de um Lexiconiano que não o deixara copiar. A professora puxou da espingarda e disparou.”

” 6 – DEMONIO PSU

Morte.
A palavra ressoa-lhe na cabeça enquanto corre pelas ruas silenciosas da cidade sem nome, uma das muitas do seu mundo tão jovem, mas já condenado.
Ninguém em redor. Todos os outros estão provavelmente recolhidos nas suas casas, abraçados e a tremer de medo enquanto esperam o fim.
Chega finalmente ao edifício, sem abrandar ao atravessar as portas entreabertas. Os elevadores não funcionam. Pelas escadas, então. Ofegante, sobe-as freneticamente. Na sua mente passam imagens de futuros hipotéticos, vidas que nunca serão.
A porta do apartamento está fechada, mas um pontapé resolve o problema. Corre para a grande janela transparente e contempla intensamente a paisagem grandiosa que se desdobra até ao horizonte sujo e avermelhado.
Maravilha por tudo o que poderia ter sido.
Revolta pelo que nunca será. Pelas vistas que ninguém viu. Pelas histórias que ninguém contou. Com um suspiro, prepara-se para o fim.
Está quase a acabar.
Acabou.”

” 7 – Passagem de um engenheiro
Pável Calado

Passado o susto inicial, os primeiros momentos de pânico, tirei a máscara – agora inútil – cujos tubos, decepados da conduta de oxigénio, me chicoteavam a cara com violência. A máscara voou em direcção ao céu, levada num rodopio pelo rugido do vento. Podia enfim abrir os olhos.
Talvez fosse o final apropriado para uma carreira tão ambiciosa em estruturas antigravitacionais. As minhas obras pairavam sobre o mundo, cidades sobre cidades, nações sobre nações, numa indústria que fazia crescer a Terra e elevava os homens acima das montanhas, acima das nuvens e acima até dos próprios homens.
Tinha mais um, talvez dois minutos de vida. Lá em baixo, cada vez mais perto, só restavam sombras, frio, lixo – tudo o que deixei para trás e que agora me esperava. Como sempre, no fim do percurso circular que fazem todas as vidas, o futuro transforma-se em passado e o passado transforma-se em futuro.”

” 8 – Joni Postas
Pável Calado

Diziam que era o feiticeiro mais talentoso da escola de Arroios. Sem tirar a varinha do bolso, dava-lhe meia volta e pimba, lá saltava a carteira do bolso de um turista, direitinha à maleta do colega.
Pois bem, o Joni achava-se o maior e um dia lá se lixou. Não sei se conheces o Cigano, que trabalha no Bairro, especialista em poções mágicas? Ora o Joni, um dia já cos copos, resolveu que ia palmar dois cantis de poção ao gajo. Lá de longe, da esquina, sacou da varinha e pôs-se a abaná-la. Bom, a rua estava cheia de camones, aquilo eram carteiras a saltar dos bolsos que pareciam tainhas no rio!
Foi uma salganhada, tudo aos gritos. Não tardou apareceu a bófia, enfiou-lhe um daqueles sacos pretos na cabeça, daqueles dos mandarins da China, que travam a magia, e lá foi o Joni prá pildra.
‘Tou’t’a dizer, pá!”

” 9 – SOS – Sindicalismo dos Órgãos de Soberania
João Ventura

Começou com os juízes. Não era bem um sindicato, era uma associação sindical, embora distinguir a diferença exigisse um curso de Direito.
A Assembleia da República ficou com inveja. “Então somos menos que eles?”, questionavam-se os deputados. E dito e feito: assembleia constituinte do sindicato, estatutos, direito de tendência, naturalmente, eleições dos corpos gerentes. Aprovado mais depressa do que muitas leis.
O Governo não se quis ficar atrás. Foi ainda mais rápido, porque o número de sócios era muito menor. O PM presidente, o Ministro das Finanças tesoureiro, um Secretário de Estado a secretário – já tinha o título – mais dois vogais e pronto. E direito de tendência, quando viesse um governo de coligação, logo se veria.
O Presidente da República é que não alinhou. Sendo o único sócio teria que acumular todos os cargos da direcção. Esqueceu o assunto e foi presidir.”

” 10 – Open Day
João Ventura

“Aqui é o Departamento de Informática Neocartesiana”, explicou o guia ao grupo de visitantes. “As designações obsoletas hardware e software foram abolidas e substituídas por corpo e alma. Deixou de haver engenheiros de hardware e software, há agora médicos e psiquiatras.”
Sinais de agitação surgiram no átrio da entrada. Conduzido por dois seguranças, um homem vestido de preto, com um colarinho branco e segurando debaixo do braço uma maleta com uma cruz em baixo-relevo na tampa, foi rapidamente levado ao elevador e subiu com um dos guardas.
O guia dirigiu-se ao outro segurança e perguntou: “O que se passa?”
“Tivemos um alerta da Secção Fundamentalista do Departamento. Uma impressora começou a vomitar papel impresso com estranhos símbolos, e como naquela secção não acreditam na medicina, chamaram um padre para lhe aplicar um exorcismo.”

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